terça-feira 7, fevereiro, 2012 13:33
A arte se julga pela estética, a política pela ética
Postado por Rádio Legalize em Notícias

Uma parte da militância que organiza a Marcha da Maconha no Brasil manifestou mal estar com o calendário da Rádio Legalize. Houve até quem defendesse vetar a sua divulgação no site nacional da Marcha. O calendário seria machista, sexista, contribuiria para a opressão das mulheres e por aí vai. Para cada mês do ano de 2012 uma garota com pouca roupa e objetos relacionados ao tema da cannabis. O lucro obtido será revertido para a organização da Marcha da Maconha Rio.
Duas questões: a mais óbvia é se a argumentação contra o calendário procede, a mais importante é se ele poderia ser censurado. Em relação à primeira questão, o calendário não é machista por exibir corpos femininos. Seria por acaso feminista um calendário com modelos masculinos? Seria gay? Não seria nada disso, seria só um calendário, ou melhor, um ensaio fotográfico em forma de calendário, ou seja, seria arte.
O que é arte? Para que ela serve? Essas perguntas são as chaves para que se possa responder à segunda pergunta, sobre se o calendário poderia ser censurado por ser machista. Na verdade, sobre se qualquer obra de arte poderia ser censurada, por esse motivo ou por qualquer outro. A resposta é taxativamente negativa.
“Não existem livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos. A forma de governo mais adequada ao artista é a ausência de governo. Autoridade sobre ele e a sua arte é algo de ridículo.” Oscar Wilde desdenhava da ingerência da política, da religião, da ética e da ideologia no trabalho do artista. Com décadas de antecipação, ele denunciava o ridículo do “realismo socialista” e de outras propostas de controle autoritário da estética pela ética, pela moral lato senso, em geral através do controle estatal sobre o trabalho dos artistas, a pretexto de promover valores morais e objetivos políticos.
“Uma obra de arte deve ser julgada em primeiro lugar por suas próprias leis”, escreveu Leon Trotsky em “Literatura e Revolução”. A arte reflete o contexto em que é feita, o povo, as circunstâncias históricas, sociais, econômicas e, claro, a sensibilidade do artista diante de todos esses fatores. Pode ser engajada e progressista ou refletir os preconceitos e opressões existentes na sociedade. Não são estes os parâmetros pelos quais ela deve ser avaliada.
O que esse debate tem a ver com o calendário da Rádio Legalize? Tudo. No caso se cometeu o erro trágico de confundir arte com posição política. São coisas totalmente diferentes. Mesmo que o calendário fosse machista não seria motivo para a censura, por ser uma obra de arte e nessa qualidade não ser passível de avaliação política. É bom deixar claro que o erro que se critica aqui não é o de combater uma posição política identificada como opressiva, reacionária, o que for, mas o de disputar o conteúdo estético de um trabalho artístico como se fosse ele a impor as relações de dominação social e política. Não é. É a política que impõe. A arte quando muito reflete.
Admitir submeter uma obra de arte a um crivo ético, ideológico, político ou religioso para que possa ser exibida ou divulgada, seria voltar ao tempo em que Mao promovia a “grande revolução cultural proletária” na China, em que Stalin levava Maiakovski ao suicídio e censurava o gênio criativo de Eisenstein, em que Hitler e Goebbels impunham aos artistas alemães que adotassem o discurso e a estética do nazismo ou, voltando ainda mais longe na História, em que a Inquisição fazia valer o seu Index Prohibitorum, lista de obras banidas por contrariarem a doutrina católica.
A verdade é que os regimes autoritários ou totalitários sempre buscaram controlar com mão de ferro a expressão artística e cultural, como parte de sua batalha permanente pelo controle das mentes, das vidas e dos povos. Para um movimento como a Marcha da Maconha, que no Brasil foi alvo da mais atroz repressão policialesca, de tentativas de criminalização, que precisou de uma decisão do STF para garantir um direito fundamental como a liberdade de expressão, praticar internamente a censura a uma criação artística seria uma contradição explosiva. Uma catástrofe.
Tentar negar que a censura seria censura e chamá-la de “crivo político” não resolve nada. Pelo contrário, só piora as coisas. Introduzem-se no debate os elementos da novilíngua e do duplipensar, nos exatos termos delineados por George Orwell em sua obra 1984, e assim o próprio debate se desqualifica. Levando a sério tal raciocínio, a ditadura militar brasileira não censurou Chico Buarque, por exemplo, apenas submeteu a obra dele a um “crivo político”. Não dá.
A esta altura alguém pode dizer que uma coisa é a censura pelo Estado, outra coisa é quando uma organização não governamental, um movimento social, uma entidade não estatal enfim, estabelece seus critérios próprios, válidos apenas para os seus veículos. Isto lembra a “novela” do beijo gay na TV aberta brasileira. Não é o Estado que veta a exibição dessa cena, são as emissoras que praticam a autocensura para não afrontar uma determinada moralidade sexual machista e homofóbica.
Se o calendário da Rádio Legalize pudesse ser censurado em nome de um valor moral (ista), como criticar a Rede Globo e as concorrentes por fazer a mesma coisa? OK, alguém pode dizer que a Globo é um dos “bandidos” e nós estamos entre os “mocinhos”, que ela é uma corporação maligna e nós um movimento libertador. Logo, nós podemos censurar e ela não. Nada mais equivocado, como veremos adiante.
Falando na grande mídia, na “imprensa burguesa”, no “PIG” ou como se queira chamar, será que eu não estou reproduzindo nesta defesa do calendário da Rádio Legalize o discurso dos tubarões contra a democratização da mídia e o “controle social” de suas atividades e fiscalização? Não. Claro que não. Agora, o que é democratização e “controle social” da mídia? Se for a adoção de normas prevenindo a criação de monopólios ou oligopólios e buscando desmembrar aqueles que hoje existem, tudo a favor. Se for submeter o conteúdo a ser exibido por qualquer veículo ao crivo do Estado ou “da sociedade”, seja lá qual for o órgão designado para representá-la, o nome disso é censura e não é aceitável.
Voltando ao assunto do calendário, nós podemos censurar e a Globo não? Se nós censuramos o fazemos pela emancipação das mulheres, dos maconheiros, de quem seja? Praticada por nós, a censura não é censura, é revolução, transformação, emancipação, é isso mesmo? Parece ser esta uma visão politizada da questão, que reconhece a opressão realmente existente e tenta compensá-la usando contra os opressores os seus próprios métodos. Alerta. Exatamente neste ponto é que parimos o nosso próprio monstrengo totalitário, especialmente se o fazemos não no campo da política propriamente dita, mas no da arte.
Mais uma vez, obra de arte não é posição política, pode até expressar uma, mas o artista não pode ser cobrado por isso e nem muito menos a obra ser censurada por supostamente expressar uma posição que alguém julgue errada. Ou por poder ser interpretada de uma maneira ou outra. A principal relação da arte com a política é que quanto mais aberta e democrática uma sociedade, mais livres são os artistas para produzi-la e disseminá-la. O inverso também é verdadeiro, quanto mais fechada e autoritária a sociedade, mais presente se faz o controle sobre a produção e a divulgação da arte. A obra de arte não está “certa” ou “errada”, ela é bela ou não é. Pode ser sublime ou vulgar. Nós gostamos dela ou não. Os critérios éticos e ideológicos, que sejam aplicados na política. Simples assim.
Saudações libertárias,
Gerardo Santiago (advogado da Marcha da Maconha)
Tags: calendário rádio legalize 2012, censura, crivo, marcha da maconha





10 Respostas para A arte se julga pela estética, a política pela ética
Gabriel
fevereiro 7th, 2012 em 14:35
Parabéns pelo texto, Gerardo.
A nossa causa é apartidária e libertária, os ismos não foram convidados pra nossa emancipação.
ANDRÉ BARROS
fevereiro 7th, 2012 em 14:36
Valeu Dr. Gerardo pelo texto sensacional, abraço bem apertado!
Marcha da Maconha – Blog » A arte se julga pela estética, a política pela ética
fevereiro 7th, 2012 em 15:38
[...] da Radio Legalize [...]
Vinicius Soares
fevereiro 7th, 2012 em 16:40
Parabéns pela retórica, Dr. Gerardo.
Mas na minha opnião, arte pode ser apartidária, mas nenhuma manifestação social do ser humano (seja individual ou coletiva), e a arte se inlui aí, pode ser considerada APOLÍTICA. E considero até um cinismo absurdo dizer que este calendário é “pura arte” e não tem nenhuma intensão política intrínsica.
E o que é ainda mais contraditório no seu texto, é que a arte que hipócritamente pretende ser APOLÍTICA, exerce na verdade a política da alienação e por tanto contribui justamente para o contrário do objetivo do movimento. Aliás se você fumar um baseado você vai ver a besteira que vc ta falando. Você fez um recorte parcial de ideias brilhantes, que tinham como objetivo criticar a censura e a manipulação da arte alheia para objetivos próprios de grupos políticos. Mas dúvido que qualquer um desses pensadores concordaria que a arte pode ser isenta de OPNIÃO! ISSO É UMA VERGONHA PARA QUALQUER BRASILEIRO QUE CONHECE A HISTÓRIA DA ARTE DE SEU PAÍS!
Em segundo lugar, apesar de eu mesmo não participar ativamente do movimento, até hoje sempre me senti representado por aqueles que bravamente são ativos. E acredito que esta seja a essência de qualquer movimento, aqueles que levantam a bandeira, levantam com a força de milhões de pessoas que estão por trás setindo-se representada. Uma atitude dos líderes que não representa a opnião dos representados, desfaz o laço que existe entre eles.
Portanto eu acredito que a Radio Legalize tem o direito de criar a arte que quiser, com a OPNIÃO que tiver. Porém, acho totalmente válido que esta arte não seja relacionada a um movimento se a OPNIÃO imbuída na mesma não corresponde a daqueles que são representados pelo movimento.
Portanto no caso acho errado relacionar o calendário com o movimento da Marcha da Maconha!
Valeu e boa sorte ai nos trabalhos!
BRUNO LOGAN (SP)
fevereiro 8th, 2012 em 23:54
GOSTARIA DE COLOCAR OS MEUS PARABÉNS PARA AS MENINAS, SÃO MUITO MAIS CORAJOSAS E TÃO MILITANTES QUANTO EU!!!!
MEUS PARABÉNS, QUERO MUITO VER O CALENDÁRIO!!!!
ABRAÇOS A TODOS!!!!
bruno
fevereiro 24th, 2012 em 02:11
só de ler esse começo ” Em relação à primeira questão, o calendário não é machista por exibir corpos femininos. Seria por acaso feminista um calendário com modelos masculinos?…” já desanimei…
Amigo por favor, tente entender com mais atenção as questões que estão sendo levantadas sobre o assunto e principalmente sobre feminismo.
Este é o típico péssimo argumento utilizado para desqualificar a luta feminista pelo mundo. Que é , vai negar que existe sexismo e machismo na história? e que isso causou e causa inúmeros males? Vai desqualificar todos e todas que estudaram e teorizaram sobre isso sem nem te-los lido? Qual o problema de buscar com atenção e carinho entender quais são as reflexões que estão sendo apontadas? Só pq agora o questionamento é para “sí”, vão apenas ficar negando e justificando com unhas, dentes e textos retóricos que isso não passa de uma “viajem” de radicais? A maioria dos textos e comentários que vi questionando o conteúdo do calendário se dá PRINCIPALMENTE sobre a questão da exploração da imagem da mulher para fins comerciais, ou seja, reprodução de um sistema capitalista e sexista. Ninguém está contra o calendário pq acha vulgar ou pornográfico, mas sim por reproduzir o mesmo jogo de um sistema machista.
No entanto, os argumentos que vejo dos defensores do calendário se dá na maioria das vzes “desqualificando” a crítica ao invés de buscar entende-la. Deste lado, já entendi que acham que é tranquilo , pq são fotos artisticas, pq vai ajudar a marcha a arrecadar grana, pq as meninas toparam, pq as ftos nao sao vulgares e etc…. E vcs? o que entenderam sobre os inumeros posts explicando sobre de que maneira se construiu o sexismo e o machismo dentro do sistema capitalista? o que entenderam sobre os estudos de cultura de massa? de cultura sexista e demais coisas que os contra o calendário andaram dizendo?
Se você entendeu isso:
“…Em relação à primeira questão, o calendário não é machista por exibir corpos femininos. Seria por acaso feminista um calendário com modelos masculinos?…”
Então não entendeu nada.
E sobre o final do texto:
“…Mais uma vez, obra de arte não é posição política, pode até expressar uma, mas o artista não pode ser cobrado por isso e nem muito menos a obra ser censurada por supostamente expressar uma posição que alguém julgue errada. Ou por poder ser interpretada de uma maneira ou outra. A principal relação da arte com a política é que quanto mais aberta e democrática uma sociedade, mais livres são os artistas para produzi-la e disseminá-la…”
Conhece Walter Benjamim? “… se os fascistas estetizam a política, então politizemos a estética…”
MouChoque
fevereiro 24th, 2012 em 10:19
Quem criticou calendário nem se quer viu. Assim como você.
bruno
fevereiro 25th, 2012 em 17:56
Não vi o calendário na integra pq ainda não consegui encontrar um link que eu possa ve-lo todo. No entanto vi algumas fotos sim, MAS ISSO NAO MUDA ABSOLUTAMENtE em NADA as críticas, não critíco por achar , pornográfico, erótico ou vulgar,não acho nada disso, a critíca é UNICAMENTE pela reprodução de um sistema de exploração da imagem feminina e por associar isso a um movimento da qual o calendário NAO expressa a opnião e vontade de todos e todas participantes do movimento, logo não se deveria associar ao movimento algo que não é de acordo comum. É uma pena que mesmo dentro de movimentos importantes como estes não se aceitem críticas, que ao invés de se contruir e refletir juntxs, fica-se apenas na defensiva, justificando e desqualificando as críticas. É lamentável…
MouChoque
fevereiro 29th, 2012 em 22:46
Você sabe de onde vem todo o dinheiiro da marcha, todos os doadores? Qual a intenção de cada um?
j.
março 1st, 2012 em 16:24
Caro Bruno, o direito de marchar é de todos, a Marcha não tem dono. A Marcha da Maconha é um evento, um ato que qualquer um pode participar e ajudar como bem entender.