Marcha da Maconha: Festa pública de tolerância e civilidade. No Rio!

Um ano depois do fiasco antidemocrático que protagonizou em 2008, desta vez o Rio de Janeiro se redimiu. A Marcha da Maconha de 2009 na cidade ocorreu neste sábado, na orla da Praia de Ipanema, sem incidente algum, permitindo que entre duas e três mil pessoas protestassem com responsabilidade e segurança, pedindo alterações na lei sobre drogas no Brasil – em especial a legalização do consumo e a regulamentação do plantio e do comércio de maconha.

Cerca de 70 soldados da PM e 30 guardas municipais acompanharam todo o evento, sem interceder. A atitude da polícia mereceu aplausos, assim como a presença do Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que seguiu a passeata inteira e ainda fez discurso. Pela primeira vez na história do Brasil, uma alta autoridade da República participa de uma manifestação em defesa da legalização da maconha. “Hoje, a guerra contra as drogas mata 30 vezes mais do que a overdose. E só a hipocrisia é que não vê isso”, disse o ministro.

Ao falar aos manifestantes, Minc lembrou ainda que não apenas ele, mas os ministros da Saúde, José Gomes Temporão, da Justiça, Tarso Genro, e da Cultura, Juca Ferreira, são favoráveis à legalização da maconha e a outras mudanças na atual lei, que apesar de já ter abolido a criminalização do consumo de drogas, ainda é muito pouco clara nas definições sobre como a questão deve ser tratada.

Respeitando o que os organizadores pediram com insistência, nenhum manifestante foi visto fumando maconha durante a marcha. Esse fato deverá ser fundamental para ajudar a convencer as autoridades – em especial as polícias e o Ministério Público no Rio de Janeiro – de que a manifestação não é pretexto para a desobediência civil, nem promove apologia ao crime. O bom exemplo aqui no Rio também pode ajudar nas batalhas judiciais que ainda estão sendo travadas em outras nove capitais, onde a realização da marcha está suspensa.

Apenas no fim do evento, já durante a dispersão, no Arpoador, a polícia flagrou e deteve um rapaz que fumava um baseado. Ele foi levado à delegacia e posteriormente liberado, já que por lei o uso de drogas não é mais crime mas ainda é passível de detenção. Na opinião deste blog, o caso não mancha o esforço dos organizadores para que não houvesse consumo de drogas na marcha, o que prejudicaria sua legitimidade. A detenção, porém, foi destacada por alguns noticiários que acompanharam o evento.

O comando da passeata ficou a cargo do sociólogo Renato Cinco, organizador da Marcha da Maconha aqui no Rio, e dos advogados Gerardo Xavier e André Barros, representantes legais do movimento. Durante a marcha, o cuidado para que tudo saísse sem incidentes foi notório. Nas palavras de ordem, comuns nesse tipo de acontecimento, tudo o que pudesse ser interpretado como provocação ou desrespeito à polícia foi evitado. Os discursos de Cinco e de Gerardo, durante a concentração, priorizaram a compreensão histórica, pouco difundida, a respeito das origens milenares do consumo de maconha e do uso do cânhamo no mundo, e também as causas políticas, sociais e econômicas que levaram ao seu banimento da sociedade ocidental contemporânea, há menos de 80 anos.

O bom-humor, como sempre, também estava presente. Além dos cartazes e fantasias levados pelos manifestantes, a organização distribuiu cententas de máscaras de papel, com imagens de personalidades de alguma forma ligadas à maconha. Estavam lá os rostos de Bezerra da Silva, autor da célebre música “Vou apertar, mas não vou acender agora”, do imbatível nadador Michael Phelps, recentemente obrigado a pedir desculpas publicamente por ter sido visto fumando um baseado numa festa, quando estava de férias das piscinas; e da atriz Maria Alice Vergueiro, notabilizada pelo vídeo “Tapa na Pantera”, fenômeno de audiência na internet, entre muitos outros.

ara os organizadores, a Marcha da Maconha no Rio de Janeiro foi um sucesso. Este blog, que defende o debate aberto sobre drogas, concorda. Que o evento sirva como marco para o início de um debate sério sobre o tema no Brasil, livre de dogmas religiosos, preceitos pseudo-científicos e radicalismos morais. E que, nas próximas semanas, outras capitais possam recuperar também o direito de realizar manifestações públicas pacíficas, sobre o que bem entenderem, sem necessidade de prestar contas prévias com a Justiça. Uma Justiça que, muitas vezes, parece não ter lido a própria Constituição pela qual reza.

Fonte: Sobredrogas

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