Marcha da maconha, festa pública de tolerância e civilidade. No Canadá

Após quatro anos no Canadá, regressar e ver toda a polêmica criada em torno da Marcha da Maconha no Brasil me faz pensar que um desses dois países está muito errado na forma como trata a questão. Enquanto no Brasil a simples realização da Marcha rende uma batalha de liminares judiciais e até mesmo prisões, em Toronto ela já completou 10 anos. As últimas edições, nas quais estive, reuniram cerca de 20 mil participantes. Tudo em clima de liberdade e paz. Vendo a marcha, um desavisado poderia até pensar que uso e posse de maconha são legais no Canadá. Não são. Tolerância é a palavra de ordem naquela parte do globo.
Todos os anos, a marcha sai do Queen’s Park, na região central de Toronto, percorre alguns poucos quilômetros e retorna ao ponto de partida. Então, os participantes se espalham pelo extenso gramado, bem atrás do prédio da Assémbleia Legislativa da província de Ontario. Ao longo do trajeto da marcha e também durante a festa, no parque, a polícia está ostensivamente presente. Mas não está ali para reprimir. Dezenas de policiais simplesmente acompanham a passeata, garantindo a segurança dos manifestantes e organizando o trânsito. E depois, se posicionam ao redor do parque. Embora a grande maioria dos participantes consuma maconha durante todo o evento, os organizadores afirmam que jamais alguém foi detido. Eu nunca testemunhei sequer um príncípio de tumulto.
Embora eu não seja mais usuário de maconha desde a adolescência (e nunca tenha sido usuário de outra droga ilícita), não perdia esse evento, pois é a mais divertida dentre as dezenas de festas de rua que tomam Toronto entre a primavera e o verão. Como em quase tudo no Canadá, a organização impressiona. O evento tem até patrocinadores oficiais. São quatro palcos simultâneos em que bandas se revezam tocando música de toda parte do mundo. Sentados no gramado, 20 mil pessoas celebrando e se divertindo. A atmosfera é de paz – e de muita maconha. Ao redor, trailers e barracas vendendo comida, produtos orgânicos, camisas, todo tipo de coisa. (Exceto álcool. Curiosamente, beber na rua no Canadá não pode. Isso sim pode lhe trazer problemas mais sérios com a polícia.) Ao fim, a organização distribui sacos de lixo, e os próprios manifestantes cuidam da limpeza do parque.
A marcha congrega não apenas defensores da legalização da maconha, mas também partidários de outras causas: anti-globalização, anti-imperialismo, pró-Palestina, contra a presença do Canadá no Afeganistão, contra a política canadense de imigração, ambientalistas. (Já vi na marcha até manifestantes CONTRA a legalização – a tolerância vale dos dois lados.) Todos aproveitam a oportunidade para se expressar, formando uma divertida salada de protestos. Há gente de todas as etnias. E a maioria naturalmente é de jovens, mas há pessoas de todas as idades – mesmo crianças, pois muitos levam suas famílias.
A marcha é, sem dúvida, a maior e mais explícita demonstração da tolerância da sociedade canadense em relação à maconha. Porém, está longe de ser a única.
Em Toronto, é normal ver pessoas fumando maconha em parques e praças sem ser incomodadas. Mesmo nas ruas do centro da cidade, vi algumas vezes gente de terno e gravata fumando um, andando para o escritório na volta do almoço. Ninguém ao redor parece surpreso ou ofendido. Fumar no meio de uma rua movimentada pode, sim, causar problemas com a polícia. Mas em geral a reação policial, quando há, é pedir que o sujeito apague o baseado. Na região das ruas Queen e Bathurst, onde há muitos pedintes, vê-se alguns deles com plaquinhas dizendo: “Change for Weed” (algo como “Trocado para Maconha”). Muitos passantes atendem o pedido e jogam uma moeda, seja porque a plaquinha provocou uma risada, seja porque é o próprio passante um usuário solidário. Há em Toronto até mesmo um café onde as pessoas vão para bater papo e fumar maconha. Não é legal, mas não é escondido de ninguém.
Em 2002, um comitê do Senado canadense aprovou uma resolução recomendando a descriminalização da droga, no entanto o tema continua até hoje em discussão. A pressão maior contra a legalização parte do governo dos EUA, que teme que o Canadá se torne um grande fornecedor, como hoje é o México. O uso ou posse de maconha só são permitidos por lei para uso medicinal. Mas lá a sociedade – e, a reboque, a própria autoridade policial – passou por cima da lei. O tráfico sofre repressão severa, mas a lei que proíbe o uso da maconha simplesmente “não pegou”, como se diria aqui no Brasil.
Como disse no início desse texto, a forma como Brasil e Canadá lidam com a questão do uso de maconha é tão diferente que me leva a crer que um dos dois está muito errado. Tendo morado em ambos os países, e tendo visto as consequências da repressão e da tolerância, é difícil acreditar que seja o Canadá.
(*): O carioca Arthur Max é fotojornalista e viveu quatro anos em Toronto, no Canadá
Fonte: Sobredrogras















































maio 4th, 2009 at 10:01 am
Hi, good post. I have been pondering this topic,so thanks for writing. I’ll certainly be subscribing to your blog.